A notícia na íntegra | por Gláucia Lima

terça-feira

27

janeiro 2015

0

COMENTÁRIOS

Gestantes continuam morrendo por falta de assistência em Caicó; Governador e Secretário de Saúde parecem não se importar

Por , em Opinião

photo.phpDa Redação – Temos dois hospitais funcionando em Caicó. Um para urgências gerais, Hospital Regional do Seridó e outro para obstetrícia, o  Hospital do Seridó. Em dias em que as escalas estão cobertas, temos dois médicos plantonistas: o clínico geral e o da UTI. O Hospital do Seridó, dispõe de 01 Obstetra e 01 pediatra. Em nenhum dos dois existem cirurgiões e anestesistas de plantão. Em nenhum dos dois existem equipamentos de Ultrassonografia ou qualquer exame com maior complexidade. Isto dificulta demais um atendimento com qualidade e resolutividade.

Na situação de ontem, que culminou com a tragédia da morte de uma mãe e de uma criança, o que vimos foi o seguinte: a paciente foi direcionada ao hospital regional e chegando lá encontrou um clínico geral para fazer o primeiro atendimento. O hospital não dispunha de um sonar – espécie de ultrassom portátil que escuta o coração do feto – para saber se estava vivo.

Quando foi constatado o óbito da mãe, o passo seguinte seria uma cesárea de urgência para tentar salvar o bebê. Como o hospital não tem cirurgião de plantão, esse procedimento ficou na dependência do cirurgião que estava de sobreaviso ou que o Obstetra plantonista do hospital do Seridó se deslocasse até o regional para fazer o procedimento.

A questão é que a cesárea pôs-morte tem que ser feita imediatamente após a morte da mãe. Então, amigos, a situação é essa. Se estivéssemos em um lugar que oferecesse as condições ideais, a paciente teria sobrevivido? Nunca saberemos! Foi roubado dela e do seu filho esse direito.

Qual a solução para essa situação?

A solução definitiva é o Estado agir, e falo aqui estado, como órgãos responsáveis pelo serviço da saúde que, aliás, é direito garantido pela constituição brasileira que no seu artigo “Art. 196:

A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução dos riscos de doença e de outros agravos e o acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.

Tal preceito é complementado pela lei 8.080/90, em seu artigo 2º:

“A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício”.

Eu tenho a impressão que a gestão de saúde, municipal, estadual ou federal não tem conhecimento de que no Seridó existem alguns milhares de pessoas morando e morrendo por falta de assistência. A rede básica da maioria das nossas cidades não funciona. No caso das gestantes, boa parte delas não conseguem fazer um pré-natal de qualidade. Muitas vezes sequer conseguem os exames de Ultrassonografia. As que têm gestação de alto risco enfrentam dificuldade de acesso para uma atendimento especializado. E quando chegam ao hospital em uma situação tão desfavorável como a de ontem, encontram uma estrutura totalmente precária para atendimentos que precisam de medidas urgentes.

Quando será que os gestores irão entender que apenas um médico clínico não pode ser o responsável por dar assistência a todos os casos graves do Seridó?

Quando irão entender que vivemos em 2015 e não podemos aceitar mais sermos atendidos em hospital sem os mínimos recursos técnicos?  Nenhum tem um ultrassom ou um tomógrafo. Falta papel pra receitar e até para limpar a bunda (me perdoe pela expressão).

O governador Robinson Faria visitou o Regional quando ainda não era candidato, veio a Caicó na campanha, diz que tem conhecimento da nossa situação, mas ainda não veio ao Seridó para apresentar alguma proposta de melhoria.

Nesses 27 dias de janeiro, já entrevistei o Governador e o Secretário de Saúde do Estado, Dr. Ricardo Lagreca, e nenhum dos dois tem previsão para vinda ou pelo menos envio de um representante para começar a resolver nossos problemas.

Alguns vão dizer que é pouco tempo de gestão. Eu direi: NÃO!

Pouco tempo teve a mãe que morreu ontem deixando marido, filhas, amigos e um drama familiar que durará para sempre.

Triste, muito triste, mais uma vez precisar relatar esta situação. Pessoas morrem e sempre morrerão em qualquer lugar e em qualquer hospital do mundo.

A diferença é morrer com ou sem dignidade.

Gláucia Lima

Jornalista

Deixe seu recado através do Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *