A notícia na íntegra | por Gláucia Lima

quinta-feira

7

maio 2015

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Mensagem de um psicólogo servidor da UFRN sobre o que ocorreu com Máximo Augusto

Por , em Opinião

Uma breve homenagem a Máximo Augusto
por Joatã Soares

” Se eu soubesse que uma noite de quinta-feira poderia começar com risos entre amigos e terminar com um último e sofrido suspiro, eu teria declarado em alto e bom som o meu amor. Diria “eu te amo tanto!” aos meus amigos, minha família e ao meu futuro companheiro, que agora não poderei mais conhecer. Eu teria abraçado meus pais mais uma vez, prometeria novamente que estaria em casa a salvo pela manhã. Beijaria seus rostos várias vezes, e pediria que fossem fortes, pois eu não estaria mais lá para ser forte junto deles.

Se eu soubesse que aquela festa seria a última, eu teria dançado mais, teria me permitido mais, teria pedido ao Dj que tocasse a minha música favorita. Se eu soubesse que as luzes da boate seriam as últimas a iluminar meu rosto, teria admirado o sol naquele fatídico amanhecer, e teria desejado que sua luz quente me levasse para longe de toda a dor e terror que estava prestes a sentir.

Se eu soubesse que aquela esquina seria a última pela qual eu dirigiria, eu nunca teria parado o carro para o rapaz de capacete no braço. Eu teria seguido em frente, teria olhado de relance para ele com a certeza de que ele nada poderia me fazer, que seus conflitos e demônios internos não poderiam me fazer mal diante do menor desentendimento.

Se eu soubesse que o ódio ceifaria a minha vida, eu teria dito ao segurança da boate que não, não estava tudo bem. Eu explicaria a ele que apenas o ódio é capaz de fazer alguém acreditar que tem o direito de encerrar a vida de outro alguém maneira tão vil e banal. Eu pediria que ele, o último rosto amigável que pude ver antes de tudo escurecer, dissesse ao mundo que eu gostaria de ficar mais, de rever tanta gente, de amar mais e sem receios de ser condenado ou julgado por fazê-lo diferente, e tão igual, afinal de contas. Eu suplicaria que ele avisasse ao prefeito, ao governador, à presidenta, aos líderes mundiais… a todos!, que o temor, a negação e o ódio da sociedade àqueles que são diferentes sempre me sufocaram em vida, e retiraram meu ar no derradeiro momento, pelas mãos de alguém que incorpora todos estes males.

Se eu soubesse que pessoas sem amor ou compaixão diriam que “esse é o fim que merecem” homens e mulheres como eu, eu protestaria, eu gritaria para que se colocassem em meu lugar por um segundo, que imaginassem o horror do ar que não chega aos pulmões, de lutar em vão por se libertar, de sentir a vida se esvair a cada expiração, de pensar, num milésimo de segundo que parece eterno, na vida que eu poderia ter vivido. E eu diria, com o coração apertado de tristeza e saudades de um futuro que não vivi, que eu fui tão humano quanto eles, e que assim como eles, eu e ninguém merecemos partir da vida assim.

Se eu soubesse que eu não estaria mais aqui hoje, eu pediria que todos lembrassem de mim com um sorriso, com a inexorável certeza de que eu vivi envolvido no amor de meus familiares e amigos, e que em minha curta vida, fui imensamente feliz com cada um de vocês. E o meu amor por cada um, ah… este me manterá sempre vivo em seus corações.

Ah, se eu soubesse…”

Máximo Augusto, 23 anos, foi morto na madrugada da última sexta-feira, 1° de Maio, por Jean Rocha, 19 anos, que incompreensivelmente ceifou sua vida por um alegado desentendimento. Aos familiares e amigos de Máximo, envio, através deste texto-homenagem, os pensamentos e melhores sentimentos de alguém que torceu tão profundamente para que seu querido ente estivesse bem e em segurança. Vocês não estão sozinhos, e uma imensa corrente de amor e solidariedade se conecta a vocês neste momento. Sejam fortes e continuem amando o mundo e a vida com a mesma intensidade que Máximo parece ter amado.

Esta será a sua maior herança para o nosso mundo, que de amor tão desesperadamente precisa.

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